Quando alguém adoece, quase toda a atenção da família se volta para essa pessoa. Consultas, remédios, exames, alimentação, quedas, mudanças de comportamento, internações, decisões difíceis. Pouco a pouco, quem cuida vai ficando em segundo plano. Muitas vezes, o cuidador começa a faltar às próprias consultas, adiar exames, interromper exercícios físicos, altera o padrão de sono, se alimenta de forma irregular e deixa de encontrar amigos. Isso ocorre não por ausência de reconhecer a importância, mas por sentir que “não há tempo” ou porque acredita que descansar seria egoísmo, embora não seja.
Cuidar de si não é se afastar de quem precisa, mas criar condições para continuar presente sem adoecer junto. A saúde do cuidador faz parte do tratamento porque o cuidado não acontece apenas por meio de medicamentos ou procedimentos, ele acontece dentro de uma casa, de uma rotina e de uma relação. Quando quem cuida está exausto, deprimido, ansioso ou fisicamente adoecido, toda essa rede se fragiliza. Por isso, é necessário preservar momentos pessoais.
Esse cuidado começa com coisas simples: retomar uma caminhada, fazer exercício físico, manter as próprias medicações organizadas, marcar uma consulta que vinha sendo adiada, dormir melhor, aceitar ajuda para ter uma tarde livre. Para algumas pessoas, fará sentido participar de um grupo de apoio. Para outras, voltar a pintar, bordar, ler, tocar um instrumento musical, cuidar das plantas, ir à igreja, encontrar amigos ou se sentar em silêncio em algum lugar que traga paz. Não existe uma única forma de autocuidado, faça aquilo que lhe devolve o fôlego.
Também é importante ter espaço de fala. Um lugar em que seja possível dizer “eu estou cansado”, “eu tenho medo”, “eu não sei se estou fazendo certo” sem ouvir julgamento em troca. O cuidador não precisa de uma solução imediata, mas que alguém reconheça que aquilo é difícil. Ninguém deve precisar desaparecer de si mesmo para cuidar de alguém.
Preservar a própria saúde é também uma das formas mais dedicadas de continuar cuidando de alguém.
Pense nisso.
Referências Bibliográficas
LIU, Z.; CHEN, Q. L.; SUN, Y. Y. Mindfulness training for psychological stress in family caregivers of persons with dementia: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Clinical Interventions in Aging, v. 12, p. 1521-1529, 2017.